
Amaram-se perdidamente.
Desejavam-se de forma plena: cada parte de seus corpos era adorada; cada sussurro gravado em suas almas e cada gesto depertava-lhes os desejos mais íntimos.
Enfrentaram todos as dificuldades que a vida pôs em seu caminho, derrubaram todas as barreiras: não permitiriam, jamais, que nada os afastasse.
Nem ninguém!
Conheciam-se inteiramente.
De tal maneira, sentiam-se ligados que já não eram capazes de verem-se como duas pessoas distintas, mas, sim, como um sendo a metade do outro a quem amavam.
Dias alegres e horas tristes passaram por sua vida em comum , e mesmo os momentos mais angustiantes não tiveram força suficiente para abatê-los.
Seu amor era inabalável: disto, tinham segurança.
Haviam acabado de superar mais uma tempestadee experimentavam a doce brisa que segue-se à tempos de tormenta, quando de repente, sem aviso prévio, a Morte vem ao encontro de um deles e, impiedosa e friamente, arraca-lhe a vida.
Choro angustiado é o que ouve-se de um. Tristeza, como nunca antes, é o que sente o que ficou.
A Solidão torna-se sua sombra.
Ele não sabe mais quem é ao certo, e, mesmo que soubesse, jamais seria o mesmo.
Sente-se incompleto, vazio e perdido.
Ainda chora, quando o passado insiste em desfilar diante de si, trazendo-lhe à lembrança os dias em que verdadeiramente foi feliz.
Ah, o que ele não daria para que as coisas fossem diferentes!?
Como gostaria de ter novamente aquele a quem tanto amou e por quem tanto foi amado!
A vida é injusta.
Quantos casais há sobre a Terra que , na verdade, não se amam, mas que não se separam por interesses mesquinhos ou conveniência?
Porém , o Amor é tão poderoso que nem mesmo a Morte pode pará-lo.
Ele ainda o sente, ainda o vê.
Sim, nas roupas que agora cobrem seu corpo negro; nas canções que o outro entoava desafinado.
De vez em quando, surpreende-se conversando com ele e declarando o quanto ainda o ama...e esquece de que fala com alguém que se foi pra longe...para nunca mais voltar.
Mas ele volta!
Quando o que ficou adormece, às vezes, vê-se ao lado de seu amor eterno, conversa com ele, riem-se juntos.
E, num destes encontros extraterrenos, amaram-se, como amavam-se na Terra: aquele amor ardente e apaixonado, tão conhecido por ambos, quando compartilhavam do mesmo leito.
Então, o que ficou acorda suado, com o coração acelerado e se pergunta, confuso, se seria possível tal possiblididade.
Mas, intimamente, ele nem quer saber a resposta, pois tem certeza de que esteve com sua metade desencarnada, aquela que não se acha mais presa e limitada pelas paredes físicas da matéria corpória.
Será que o Amor, o senhor sentimental, para reunir os dois amantes, espiritualizou o corpo do que ficou ou tornou o espírito do que se foi físico e palpável, para que continuem se amando?





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